Deus te abençoe, disse o site

Ilustração de Masha Krasnova-Shabaeva

Fiz a inscrição para assistir a um congresso de patrística e, ao finalizar, veio uma mensagem de confirmação inesperada:

— Deus te abençoe.

Não estava esperando por isso, não é usual, os formulários de inscrição geralmente mantêm com a gente um contato só de atendente de balcão, quer o que, qual o seu nome, idade, está feito, obrigado. Um formulário que dissesse “abraço!” ou “beijo!” — isso já não seria inusitado?

Na sequência tive um daqueles pensamentos que só repetem um fato, mas repetem de um jeito a acrescentar evidência: esse é um congresso de patrística. Entrevi o evento com mais clareza, não só pelas aulas de filosofia, agora também pelo universo que ele implicava: entrevia esse espaço de relações em que a frase “Deus te abençoe” se efetiva como uma cola.

Além de sugerir os aspectos de um ambiente que não o meu, a expressão me carregava para outro lugar: é a minha avó, agora longe, quem se despede ao telefone com um “fica com Deus”; são os meus pais e outros parentes que também me enunciam coisas assim. São formas de dizer que a alegria deles se atrela à minha, são desejos de paz, maneiras de dizer “eu te amo”.

(O que seria um formulário cuja alegria e paz se misturassem com as minhas? Nome? Idade? Gênero? Fique bem. Endereço? Telefone? E-mail? Como ficou sabendo? Cuide-se, pegue um casaco, leve o guarda-chuva, não se arrisque na pandemia. O que seria um formulário que soubesse dizer “eu te amo”?)

Por tudo isso aquele “Deus te abençoe” soou particularmente deslocado, como quando no mar nos notamos de repente sem pé. De tal maneira que mesmo sendo agnóstico, mesmo que saiba que não há deus qualquer para me abençoar ou deixar de me abençoar, achei simpático, achei doce.

Imagine: na internet, onde se trata de suprimir a diferença ou de entronizar-se na diferença, exaustivamente um se exibindo melhor que o outro ou se impondo como melhor na medida em que não é melhor do que ninguém — imagine: um enunciado de doçura. Não pude dizer de volta, até porque é um site, mas pude sorrir de volta. E não seria isso, também, dizer de volta?

Autor

  • Duanne Ribeiro

    Jornalista formado pela Universidade Santa Cecília. Doutorando e mestre em Ciência da Informação e graduado em Filosofia pela Universidade de São Paulo (USP). Pós-graduando em Filosofia Intercultural pela Universidade de Passo Fundo (UPF). Especializado em Gestão Cultural pelo Centro de Estudos Latino-Americanos sobre Cultura e Comunicação (Celacc), um núcleo da USP. Como escritor, publicou o romance "As Esferas do Dragão" (Patuá, 2019), e o livro de poesia, ou quase, "*ker-" (Mondru, 2023).

    Duanne Ribeiro [email protected] http://duanneribeiro.info

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